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Teranóstica: abordagem que detecta e trata câncer com radiação direto na célula é testada no Brasil

Teranóstica: abordagem detecta e trata câncer com radiação direto na célula Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está tes...

Teranóstica: abordagem que detecta e trata câncer com radiação direto na célula é testada no Brasil
Teranóstica: abordagem que detecta e trata câncer com radiação direto na célula é testada no Brasil (Foto: Reprodução)

Teranóstica: abordagem detecta e trata câncer com radiação direto na célula Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está testando a abordagem teranóstica no combate ao câncer, uma estratégia inovadora que combina diagnóstico e tratamento em um mesmo processo com o uso de radiofármacos (medicamentos com elementos radioativos). A técnica permite identificar tumores por meio de exames de imagem e, em seguida, direcionar a radiação, em doses muito pequenas, diretamente às células cancerígenas. O resultado é um tratamento preciso, personalizado e com efeitos adversos minimizados - veja abaixo detalhes sobre como funciona. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Ainda em fase de investigação acadêmica e sem resultados publicados, o trabalho é conduzido pelo Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), que fica na Unicamp, e já foi aplicado em ao menos 100 pacientes, incluindo casos oncológicos avançados de diferentes tipos. E para avançar, o grupo firmou neste ano uma parceria com o Centro Uruguaio de Imagenologia Molecular (Cudim), que prevê a troca de pesquisadores, conhecimentos e insumos, além do desenvolvimento conjunto de estudos, fortalecendo a cooperação científica. Ao g1, o coordenador Carmino Antonio de Souza, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e diretor do centro, explicou que a iniciativa e a colaboração entre os dois institutos, neste momento, buscam gerar conhecimento e contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas. 🔬 Nesta reportagem você vai entender: O que é a abordagem teranóstica Por que ela é considerada inovadora Quais testes já foram realizados Em que fase as pesquisas estão hoje Como uma parceria entre Brasil e Uruguai pode acelerar os estudos O que é a abordagem teranóstica Paciente faz exame de imagem no CancerThera, na Unicamp, em Campinas CancerThera/Divulgação A abordagem teranóstica utiliza a medicina nuclear, por meio de fármacos com radioatividade para detectar e, ao mesmo tempo, tratar tumores. Ela já é praticada em alguns países, mas está sendo ampliada com o avanço da tecnologia. Funciona assim: É injetada na veia do paciente uma substância especial que emite um sinal detectável em exames, como o Flúor-18 ou o Lutécio-177. Ela é "programada" para ir direto ao tumor. A substância circula pelo corpo e gruda apenas nas células do câncer, quando elas têm um "alvo" específico. Por exemplo, no câncer de próstata, ela se liga à proteína PSMA. Depois, o paciente faz exames de imagem, como PET ou SPECT, para ver se o tumor realmente absorveu essa substância. Se isso acontecer, significa que o tratamento pode funcionar. No tratamento, uma substância parecida é aplicada e vai direto para as células cancerígenas, onde libera radiação. Essa radiação ataca as células do câncer, ajudando a diminuir o tumor e os sintomas, como a dor. Como é muito direcionado, o tratamento afeta menos as células saudáveis. "Teranóstica vem da junção de diagnóstico e terapia. Faz parte da medicina personalizada. A gente utiliza radiofármacos para marcar o tumor e entender onde ele está, em qualquer parte do corpo. Isso acontece porque eles se conectam ao tumor. Depois de detectado, o radiofármaco se acumula nas células cancerígenas e emite radiação que danifica o DNA delas", diz Carmino. LEIA TAMBÉM: Entenda parceria entre ONU e Unicamp para criação de centro de medicina nuclear inédito na América Latina CNPEM testa acelerador de prótons capaz de dar mais precisão em radioterapias contra câncer CAR-T Cell: Unicamp integra projeto pioneiro no Brasil de terapia genética contra o câncer que usa células do próprio paciente Por que a teranóstica é considerada inovadora Essa técnica contra o câncer é como uma radioterapia por dentro da célula, mas com toxicidade muito baixa, pois basta uma pequena quantidade do elemento radioativo. O protocolo prevê de quatro a seis infusões com intervalos médios de seis semanas. O pesquisador pontua que a estratégia não é totalmente inédita porque se assemelha ao que já é feito na iodoterapia no tratamento de tireoide, quando um paciente utiliza o componente radioativo tanto para realizar exames quanto para destruir as células do tumor. Apesar disso, a abordagem testada no CancerThera se diferencia das convencionais por ser mais precisa, com maior possibilidade de personalização, e por ter toxicidade mais baixa do que outras formas de terapia, o que acaba minimizando os efeitos colaterais do paciente. Veja: a quimioterapia age em todo o corpo, inclusive em tecidos saudáveis, e provoca efeitos adversos importantes; a radioterapia externa é mais direcionada do que a quimioterapia, mas também atinge células saudáveis; a teranóstica atua diretamente nas células doentes, preservando tecidos saudáveis. Em que fase as pesquisas estão hoje Carmino, que também é diretor do centro, diz que a pesquisa é translacional, pois há diversas etapas ocorrendo simultaneamente dentro do âmbito acadêmico. Hoje, são conduzidas em ambiente controlado e com aprovação de comitês de ética, incluindo testes em pacientes, mas ainda não fazem parte de um processo regulatório para aprovação como medicamento. Ainda segundo o pesquisador, não há, neste momento, intenção de submeter à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já que, agora, o objetivo não é desenvolver um fármaco para uso comercial, mas, sim, entender a terapia. A possibilidade de submissão à agência só deve ocorrer futuramente, caso algum composto avance para desenvolvimento industrial e obtenção de patente. “Nós temos várias pesquisas. Temos oito pesquisadores principais, eu sou o responsável, e temos mais de 30 pesquisadores associados, além de dezenas de alunos em várias fases, desde iniciação científica até pós-doutorados, trabalhando no projeto [...] Temos trabalhos feitos dentro da Unicamp, na química, na física, na biologia, na farmacologia e na medicina, na Universidade de São Paulo, em São Carlos, e na Santa Casa de São Paulo”. “Não há uma linha contínua entre pesquisa pré-clínica e clínica. A ciência é muito demorada no sentido de que eu não posso esperar o que a área básica desenvolve, para ir para a pré-clínica e depois para a clínica. É um trabalho enorme e que não tem um resultado único, um resultado imediato, para ser colocado para a população”. Quais testes já foram realizados Pesquisadora faz análise em laboratório do CancerThera, na Unicamp, em Campinas CancerThera/Divulgação De acordo com a Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), que financia o CancerThera como um de seus Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs), a unidade já avaliou a aplicação da substância PSMA-Lutécio-177 em mais de 100 pacientes com casos avançados. Também são realizados testes em células e animais. 🔬 O PSMA é uma proteína que fica na superfície das células da próstata e aparece em quantidade muito maior nas células cancerígenas. Ela ajuda a identificar e tratar o tumor de forma mais precisa e, por isso, é usada como um “alvo”, tanto em exames de imagem quanto em terapias direcionadas. Ainda não há resultados delimitados e publicados, mas o coordenador da iniciativa afirma que, do ponto de vista clínico, a resposta dos tratamentos tem sido promissora. "A gente tem vários pacientes que se beneficiaram, tem paciente que melhorou da dor. Até esse momento, estamos priorizando pacientes com doenças muito avançadas, que não tiveram resposta em outras terapias". Outra frente realiza revisões acadêmicas, que é quando estudiosos analisam artigos já publicados por outros cientistas ao redor do mundo, a fim de avaliar, comparar e sintetizar os resultados disponíveis na literatura científica, identificando avanços, limitações e possíveis aplicações clínicas. Faz parte da investigação teórica. Um dos artigos de revisão, assinado por equipe do CancerThera e publicado na revista científica Translational Andrology and Urology, indica que o tratamento com Lutécio-177 pode trazer benefícios em pacientes com câncer de próstata avançado. Segundo os dados, a terapia: retardou a piora da qualidade de vida; melhorou o controle da dor com atraso na progressão dos sintomas; reduziu eventos relacionados a metástases ósseas; diminuiu a ocorrência de efeitos adversos graves em comparação às terapias padrão. A análise da sobrevida global dos pacientes ainda é considerada inconclusiva, em parte devido à mudança de tratamento entre os grupos durante. Os autores destacam, no entanto, que os achados reforçam o potencial da estratégia como uma alternativa promissora, especialmente quando utilizada antes da quimioterapia, contribuindo para preservar a qualidade de vida dos pacientes. Como a parceria entre Brasil e Uruguai pode acelerar pesquisas Para acelerar o desenvolvimento e a aplicação de tratamentos oncológicos baseados em substâncias teranósticos, o CancerThera firmou, em fevereiro deste ano, uma parceria com o Centro Uruguaio de Imagenologia Molecular (Cudim). Segundo a Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), a expectativa é promover a cooperação científica e tecnológica entre as duas instituições. Isso será feito por meio da troca de pesquisadores e de estudos, podendo resultar em terapias mais avançadas e acessíveis no futuro. A parceria é estratégica porque o Cudim tem experiência no desenvolvimento de radiofármacos, enquanto o CancerThera tem acesso a pacientes e estrutura para testes clínicos. Juntos, poderão acelerar a transformação de descobertas científicas em tratamentos disponíveis para a população. É uma forma de unir forças em diferentes etapas da pesquisa. Entenda: CancerThera tem capacidade de testagem clínica e recrutamento de pacientes, com alto volume de atendimentos; é o ambiente ideal para validar radiofármacos em diferentes tipos de câncer, testando a eficácia em humanos; integra pesquisadores de áreas diversas (química, biologia e medicina), facilitando o desenvolvimento e aplicação clínica. Cudim tem experiência na produção de radiofármacos; conta com infraestrutura avançada, com acesso a medicações inovadoras; possui expertise em imagem molecular e medicina nuclear, sendo referência na área. Como resultado, a parceria deve: permitir o desenvolvimento de novos alvos terapêuticos; aumentar a capacidade de testagem e implementação de novos radiofármacos na prática clínica; facilitar a formação de pesquisadores e intercâmbio de conhecimento, fortalecendo a área na região; contribuir para redução de custos e maior disponibilidade desses tratamentos. A parceria ainda contribui para maior autonomia regional, reduzindo a dependência de importações caras de fármacos e ampliando o acesso a tratamentos mais avançados na América Latina. Veja os vídeos que estão em alta no g1 VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

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