cover
Tocando Agora:

Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba: 'Fundamental para nossa sobrevivência', diz ativista

Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba Amapô, aquendar, cacura, gongar, picumã. Talvez você não saiba o sig...

Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba: 'Fundamental para nossa sobrevivência', diz ativista
Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba: 'Fundamental para nossa sobrevivência', diz ativista (Foto: Reprodução)

Pajubá, dialeto criado por travestis na ditadura, é tema de documentário em Sorocaba Amapô, aquendar, cacura, gongar, picumã. Talvez você não saiba o significado dessas palavras que fazem parte do pajubá, linguagem criada e difundida pela comunidade LGBTQIA+, especialmente pelas travestis. No entanto, alguns termos desse dialeto já ultrapassaram os limites da comunidade e passaram a ser usados no cotidiano, inclusive por quem não faz parte da sigla, e possuem significados diferentes dependendo do contexto em que aparecem. "'Arraso', 'babado'... São expressões que a gente usa para dar enfâse em algumas situações. Por exemplo, 'babado', o significado literal da palavra é o enfeite em roupas, mas, no pajubá, a palavra ganha a conotação de algo 'chocante', uma novidade, uma fofoca", explica a travesti e ativista Maria Kali Silva, de 30 anos. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Para celebrar o Dia da Visibilidade Trans, nesta quinta-feira (29), o g1 conversou com Tiago Rodrigues, roteirista e designer do documentário "Para não dizer que eu não falei", que percorreu as ruas de Sorocaba (SP) para mostrar como o pajubá está inserido no vocabulário brasileiro. "Pajubá é uma memória, um patrimônio da cultura trans e travesti no Brasil. E a gente está falando não só de uma linguagem que foi produzida, que a gente encontra mais registros de origem durante a ditadura militar [nas décadas de 1960 e 1970], mas que também era cifrada para conseguir proteger as pessoas, era um código que só as travestis conseguiam entender para se comunicar", explica Tiago. As palavras que compõem o dialeto se misturam a elementos da língua portuguesa, do francês e de idiomas de origem africana, como o iorubá. "O dialeto surge da necessidade da comunidade trans negra no Brasil de se proteger. E, por ter essa origem de comunidade trans e de pessoas negras, ele traz muito do idioma iorubá, porque nasce nos terreiros de candomblé, principalmente. Como a palavra 'erê', que faz parte do iorubá e também significa criança para o pajubá", aponta Maria Kali. A jovem explica que a relação entre o pajubá e as travestis é mais forte porque o dialeto, como mencionado anteriormente, surgiu da necessidade de comunicação por meio de códigos. Dessa forma, pessoas de fora não compreendiam o que era dito entre elas, especialmente entre aquelas que viviam da prostituição. "Principalmente a polícia ou clientes na área da prostituição, sabe? Porque, dependendo do comentário, do código que você estava encaminhando para a sua colega ali de trabalho, digamos assim, o cliente não podia entender o que você estava falando, o policial não podia entender. Se você não tivesse como se comunicar de forma segura, poderia ser presa, espancada, violentada." Estilista Fabia Ferraz é uma das entrevistadas do documentário gravado em Sorocaba (SP) Divulgação LEIA MAIS: Parada LGBTQIA+ começou com carreata pelos direitos de pessoas trans em Sorocaba: 'Houve um despertar' Invisibilidade e falta de oportunidades dificultam acesso de pessoas trans ao mercado de trabalho: 'O mínimo não é privilégio', diz professora Expulsa de casa na adolescência, travesti cria associação para acolher e fortalecer população LGBTQIA+: 'Reescrevendo a história' Assim como todas as línguas, o pajubá passa por transformações constantes, especialmente impulsionadas pelas redes sociais. "Nas redes sociais surgem novos termos, novas palavras que se incorporam ao dialeto e que não faziam parte do idioma em sua forma original. O documentário aborda bastante essas adaptações que aconteceram ao longo do tempo", explica. Os sufixos também transformam algumas palavras do dialeto que, quando "traduzidas" para o português, acabam mantendo o significado. "Por exemplo, a palavra 'ocó' é usada para se referir a um homem. Aí usamos 'ocoisíssime', que é um homem bonitíssimo, um homem bonito com o sufixo 'íssimo'. Toda língua é assim, né? Todo dialeto é assim. Ele reflete a realidade de uma região e de um momento histórico. E o pajubá não é diferente", aponta Maria. Maria Kali Silva, ativista da ATS, buscou entender o que os sorocabanos conhecem do pajubá, dialeto ou socioleto criado por travestis no Brasil Divulgação Pajubá, bajubá, bate-bate... O próprio termo usado para denominar o dialeto varia de acordo com a região do país, como explica Tiago. "Quando a gente fala do pajubá, não tem um nome só. Em diversas partes do país, ele é conhecido por um termo diferente. Tem gente que conhece como bate-bate, tem gente que conhece como bajubá. Às vezes é chamado de 'linguagem secreta das travestis'. Além disso, cada lugar, cada região do país também vai incorporar regionalismos ao dialeto." 'Para não dizer que não falei' As cenas do documentário foram gravadas em praças, ruas e espaços privados de Sorocaba. O projeto levou cerca de três meses para ser concluído. A pesquisa e a elaboração do roteiro contaram com a participação de integrantes da Associação de Transgêneros de Sorocaba (ATS), da qual Maria Kali é uma das administradoras. "Como todo documentário, o nosso é um recorte. Além de trazer esse recorte de Sorocaba, a gente também traz ele de uma forma mais leve, que ainda tem esse tom investigativo, mas de uma forma que não tenta explicar todas as palavras. A gente quis mais entender e mostrar isso como fenômeno cultural, como algo importante", analisa Tiago. Maria Kali, Larissa Closes, Victor Trovike, Tiago Rodrigues e Marcelo Ribeiro: equipe técnica do documentário gravado em Sorocaba (SP) Arquivo pessoal Para a ativista, a produção de conteúdos que abordem temas da comunidade LGBTQIA+, aliada à exibição acessível a públicos diversos, é fundamental para que as vivências enfrentadas não caiam no esquecimento nem percam sua origem. "Quando não se tem memória, se repete a velha história. Saber sobre a história impede que esse nosso passado se apague e lembra as pessoas de que o que hoje é divertido e engraçado de se ouvir já foi fundamental para a gente sobreviver." O documentário "Para dizer que eu não falei" será exibido nesta quinta-feira (29), às 19h, no Sesc Sorocaba, que fica na Rua Barão de Piratininga, 555, no Jardim Faculdade. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados na bilheteria da unidade, com uma hora de antecedência. O documentário conta com legenda e Libras. Documentário 'Para não dizer que eu não falei' foi gravado em Sorocaba (SP) com participação da Associação de Transgêneros de Sorocaba Divulgação Pajubá como patrimônio Em outubro do ano passado, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) protocolou, junto à deputada federal Erika Hilton (PSOL), a solicitação para a apresentação de um projeto de lei que reconheça o pajubá como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, de acordo com os parâmetros técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A iniciativa é inédita no país e propõe o reconhecimento formal do dialeto como parte do patrimônio cultural brasileiro, prevendo ações de salvaguarda, documentação, ensino e fomento cultural. Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

Fale Conosco