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O refúgio inesperado do tuiuiú fica longe do Pantanal e está em Minas Gerais

Muito além do Pantanal: tuiuiús prosperam nas várzeas do Rio São Francisco em MG Pedro Rocha Ao pensar no Pantanal brasileiro, é natural imaginar os animai...

O refúgio inesperado do tuiuiú fica longe do Pantanal e está em Minas Gerais
O refúgio inesperado do tuiuiú fica longe do Pantanal e está em Minas Gerais (Foto: Reprodução)

Muito além do Pantanal: tuiuiús prosperam nas várzeas do Rio São Francisco em MG Pedro Rocha Ao pensar no Pantanal brasileiro, é natural imaginar os animais que vivem nesse bioma. Entre as aves, uma das primeiras imagens que vem à mente é a do tuiuiú (Jabiru mycteria), um dos principais símbolos da maior planície alagável do mundo. O que pouca gente sabe é que a espécie também encontrou refúgio nas várzeas do Rio São Francisco, no Centro-Oeste de Minas Gerais. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Com pernas longas, bico comprido, cabeça preta, corpo branco e uma faixa vermelha no pescoço, a ave chama a atenção pelo porte. Por ser uma cegonha, o tuiuiú voa com o pescoço e as pernas esticados, diferentemente das garças, que mantêm o pescoço encolhido durante o voo. Um indivíduo pode chegar a medir 1,60 metro de altura, ter até 3 metros de envergadura e pesar cerca de 8 quilos. É a maior ave com capacidade de voo da maior planície inundável do mundo. Essa espécie, tão querida dos brasileiros, também pode ser encontrada a milhares de quilômetros das áreas alagadas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em Arcos, no Centro-Oeste de Minas Gerais, os tuiuiús são moradores ilustres. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: IMPRESSIONANTE: Urubu tenta comer carcaça, se desequilibra e é flagrado 'girando' jacaré na água NIQUIM: Peixe peçonhento brasileiro ajuda a entender o sistema imunológico BALEIAS-JUBARTEE E AVE DISCRETA: Acompanhe a aventura do Terra da Gente em Ilhabela (SP) Longe de 'casa' há mais de 100 anos O biólogo Pedro Rocha, um dos maiores conhecedores da biodiversidade do município, explica que os primeiros registros da espécie foram feitos ainda na época do Brasil Império. Um dos relatos mais antigos é do geólogo e naturalista alemão Barão de Eschwege. Muito além do Pantanal: tuiuiús prosperam nas várzeas do Rio São Francisco em MG Pedro Rocha Em 1810, Eschwege foi contratado pelo governo do Império para realizar o primeiro grande levantamento dos recursos minerais do país. Entre 1811 e 1821, percorreu o interior do Brasil, principalmente Minas Gerais, e já naquela época registrou a presença de tuiuiús no interior mineiro. "Os primeiros exploradores da região, quando o Brasil estava sendo colonizado, eles já relatavam esse tipo de ambiente no entorno do Rio São Francisco. Então, desde lá, a gente já consegue colocar o rio como fator primordial na nossa região pra ocorrência desses bichos do Pantanal", explica Pedro Rocha. Tuiuiú à procura de água As regiões úmidas têm uma característica importante. As aves que dependem desses ambientes costumam apresentar forte comportamento migratório, já que nem sempre há água disponível. Em alguns períodos ocorrem secas prolongadas e, em seguida, grandes alagamentos. Por isso, esses animais precisam se deslocar em busca de áreas mais favoráveis. Entre novembro e março, período mais chuvoso na região, as planícies do Rio São Francisco costumam ficar alagadas em Arcos. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 "Em Arcos você vai ter muitas espécies típicas do Pantanal: cabeça-seca, colhereiro, maguari, mas você tem também aves aquáticas que às vezes não são tão comuns no Pantanal ou às vezes nem chegam lá, por outras questões de distribuição. E você vê pato-de-crista, muitos ralídeos, que é o grupo das saracuras e dos sanãs, que são aves migratórias geralmente associadas à água, e turu-turu, sanã-amarela, frango-d'água-pequeno, viuvinha-de-óculos, tricolino-oliváceo, que é um bicho típico do Chaco, vem parar em Arcos", comenta o biólogo. Mas, sem dúvida, os tuiuiús são as grandes atrações da região. Desde 2023, Pedro Rocha acompanha um casal. As aves continuam na mesma várzea, mas mudaram para um ponto localizado cerca de um quilômetro do ninho ocupado três anos atrás. Casal acompanhado Ninho de tuiuiús em MG Pedro Rocha O primeiro ninho estava em uma propriedade particular. Funcionários retiraram algumas árvores mortas e, como o ninho estava em uma delas, ele acabou sendo destruído. No entanto, os tuiuiús são territorialistas e não demorou para o biólogo encontrar a nova estrutura, no alto de outra árvore. "Eu sabia que os tuiuiús têm esse comportamento específico de ter um território. Então eles vão caçar uma árvore ali quando tiver, você pode derrubar dez árvores que, se tiver mais uma, eles vão continuar na área. Já vi isso em outros ninhos também. Então eu procurei e achei o ninho de novo. Aí ele tava nessa área atual dele, que é nas margens do Rio São Francisco. Então tem três anos, no mínimo, que esse ninho existe ali nessa várzea. Mas ele mudou um pouquinho o endereço porque a árvore antiga caiu", relata. Pela primeira vez, Pedro Rocha acompanhou a reprodução do casal. Os tuiuiús iniciaram a temporada de acasalamento no fim do período chuvoso, entre fevereiro e março. Além das cópulas, reforçaram a estrutura do ninho com galhos novos. Entre abril e maio, as aves já estavam chocando os ovos. Antes do início de junho, o biólogo conseguiu observar os filhotes. "Num prazo de três meses eles já estão saindo do ninho. Os pais têm esses três meses de mais atenção porque eles não conseguem voar. E aí acredito que lá pra setembro eles vão estar ganhando mais independência, saindo do ninho com os pais. Primeiro eles acompanham os pais, você vai ver sempre a família andando junta, encontrando eles no brejo se alimentando e, depois, os pais expulsam do ninho, porque ali é o território deles. E aí eles têm que caçar um rumo novo pra eles." Na região de Arcos, o principal alimento dos tuiuiús é um caramujo nativo das áreas de várzea. Também é comum observar as aves se alimentando de muçuns, um tipo de peixe-cobra abundante nos brejos, além de outros peixes. Tuiuiú comendo caramujo Pedro Rocha O biólogo já contabilizou 11 ninhos de tuiuiú em diferentes áreas de Arcos. Também registrou cerca de 200 indivíduos reunidos em bandos, um número significativo para uma população no interior de Minas Gerais. "Então dá pra imaginar o Rio São Francisco, um rio tão importante para o Brasil, ele tá ali com os seus berçários resistindo. Não significa que está perfeito, mas tem peixe conseguindo se reproduzir ali, tem espécies, né, não só o tuiuiú. Muitas aves, muitos mamíferos que tão usufruindo desse ambiente ainda. Então eu acho que acende essa esperança na gente novamente do Rio São Francisco, que é um rio que une o país e que une a fauna também", conclui Pedro Rocha. O Rio São Francisco é o maior rio brasileiro em extensão que corre exclusivamente em território nacional. Nasce em Minas Gerais e deságua no Oceano Atlântico, na divisa entre Alagoas e Sergipe. Com pouco mais de 2.800 quilômetros de extensão, o Velho Chico ainda guarda uma rica biodiversidade pelo interior do Brasil. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

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